A pirataria de produtos e marcas é tão engraçada quanto organizada. Se você se dispuser a ir até a rua Santa Efigênia, no conhecido centro velho de São Paulo, vai encontrar todo e qualquer software que puder imaginar. Eles estão disponíveis em catálogos nas ruas, basta você ecolher um e o vendedor busca. Em geral, estes softwares são ilegais e custam não mais do que R$10,00. E mesmo com a Lei de Software, é possível adquirir tanto um pacote com programas específicos, quanto um CD com uma coletânea de softwares de diferentes aplicações.
Não é muito difícil conseguir uma meia-dúzia de programas de editoração como o MS Word, o PageMaker, o Ventura Publisher, o Quark, o Indesign ou o próprio Adobe Acrobat, e tentar produzir alguns best-sellers em formato eletrônico. A possibilidade existe, acreditem. Embora não seja tão simples assim esta produção.
Para fazer pirataria digital de um livro existente no formato papel, o esforço é maior do que se imagina, porque requer esforço intelectual, feeling de composição, tipografia e outras coisas; além de experiência técnica do mercado editorial. Coisa que quem procura dinheiro fácil geralmente não tem. Fazendo uma parábola: uma pessoa que, por exemplo, pretende piratear um CD de música, não vai precisar reunir uma banda cover num estúdio e tentar forjar um produto. As músicas que estão no formato analógico, não demoram uma hora e já estão prontos no formato MP3 para serem distribuídas na rede. Nada que um “REC” não possa resolver. Até os discos de vinil hoje podem ser convertidos facilmente para o formato digital.
Com o livro é diferente. É preciso reunir a banda. Um livro comum, no formato papel, para ser transformado em eletrônico, passa por uma via-crúcis de preparação, digitalização, OCR, editoração, revisão e conversão que até as editoras virtuais que parecem ter o domínio, muitas vezes não estão preparadas e recorrem a um profissional.
O livro como produto de consumo
O livro parece ser um produto bem diferente daqueles com que lidamos diariamente. O livro, mesmo convencional, tem sua tecnologia própria: a capa, a orelha, o índice, o conteúdo etc. Geralmente, os leitores lúdicos não procuram livros falsos de Paulo Coelho ou do Tolkien. Procuram os originais, porque é o que lhes interessa. Se não, pedem emprestados para um amigo. Um livro embora tenha aquela coisa do consumo, não é como um carro, ou um terno. Não traz status, a não ser a sabedoria. Um livro, todo mundo sabe, é um objeto de aprendizado e, sem filosofia barata ou pieguices, um companheiro. As pessoas que estão mais preocupadas com essa coisa do roubo do livro em formato eletrônico são exatamente as pessoas que pensam o livro como um simples produto. É como no mundo da música, onde o preço do CD é exorbitante, muito caro mesmo, e quem mais rouba o artista é a própria gravadora.
Isto faz a gente pensar: as coisas certamente estão sendo mal contadas para o público em geral. Pergunte para um autor em potencial o que ele pensa. Ele certamente vai se preocupar com os seus direitos sim, mas vai ficar mesmo encantado se souber que existe uma maneira de fazer com que seus textos cheguem ao maior número de pessoas possível. E a Internet ajuda nisso. Se dez pessoas lerem o livro de poesias de um autor desconhecido, serão dez pessoas que realmente leram. A Internet tem a fama de ser democrática e, guardada às proporções, isto não é verdade. Mas um leitor pode ler o quer, sem ser influenciado por uma rede de televisão, uma revista de grande circulação. Não tem nada a ver com criações literárias que envolvem lobbys. A coisa aqui é diferente.
Voltando à tecnologia, embora saibamos que os softwares e equipamentos necessários para as tarefas de piratarias estão no mercado, à disposição de qualquer um [e, graças a Lei de Moore, cada vez mais baratos], estas tarefas exigem investimento humano. Mesmo as editoras convencionais que já tinham seus birôs prontos, não se sentem à vontade para executar tal tarefa. Uma pessoa que monta uma estrutura para piratear livros, não vai ganhar muita coisa com isto. O processo de preparação para a digitalização requer treino e tempo, e tem a questão do custo/benefício.
Mas para que os piratas não se dariam ao trabalho, independente de ser fácil ou difícil? Para o Téo, da eBooksBrasil: "Porque não traria nenhum benefício a quem o fizesse. Se alguém consegue quebrar a segurança de um programa que tenha uma grande demanda [como o Office 2000, por exemplo], como é feito na a rua Santa Efigênia, em São Paulo, o esforço é compensado pelo “mercado potencial”. Como já disse alguém, um dia, justificando porque assaltava bancos: “Porque é lá que o dinheiro está”. E enquanto houver pessoas dispostas a comprarem coisas roubadas, haverá quem as roube. Enquanto houver pessoas dispostas a comprar drogas por qualquer preço, alguém em algum lugar do mundo as produzirá."
A qualidade na pirataria
Seguindo ainda a linha de raciocínio do Téo, geralmente os piratas buscam coisas mais fáceis e populares cujo custo/benefício seja plausível, como comprar dois vídeos-cassetes e duplicar a fita do Titanic (também vendida a R$10,00 na Santa Efigênia). Este tipo de pirataria não exige esforço intelectual, o livro exige porque é conteúdo e porque está contido numa tecnologia nova, cuja indústria editorial está tentando tomar à frente para controlar. O formato VHS, por exemplo, está sendo deixado de lado porque não permite segurança e é vulnerável. No Brasil, inicialmente, o “mercado” era praticamente só de fitas piratas, de péssima qualidade, mas as únicas disponíveis. Com o estabelecimento de videolocadoras e produção de fitas nacionais de boa qualidade, esse mercado desapareceu. Fez surgir um novo: o de fitas piratas de alta qualidade técnica, não mais produzida domesticamente; e sim em grandes empresas, em algum lugar do mundo. Por causa disso, quanto de tempo, os desenvolvedores de DVD não estiveram dispostos a alocar para tornar o formato digital para filmes mais seguro? Muito tempo, não é? Acontece que já existem aparelhos de DVD sendo vendido já decodificados e, portanto, prontos para ler títulos piratas também vendidos na Santa Efigênia. E a indústria editorial tende a alocar o mesmo tempo para não deixar seu produto perder o poder de compra e procura. Se isto vai surtir efeito, só o tempo dirá.
"Existem mercados mais e menos honestos e a questão custo/benefício envolvida. Se um mercado é desonesto, a procura gerará a oferta." [ Téo ]
O MS Reader
A Microsoft, por exemplo, quando lançou a versão Beta do ReaderWorks, ferramenta utilizada para conversão de livros para o formato Microsoft Reader, fazia questão de saber quem era que estava interessado em testar seus softwares para eBook. Mesmo o “Microsoft Reader with ClearType Beta Program”, não era qualquer empresa ou pessoa que possuía ou tinha acesso. A Microsoft queria manter o controle sobre tudo e queria ter a certeza de que seus programas estavam sendo testados por editoras e casas publicadoras sérias, e de que não cairia nas mãos dos piratóides. A idéia não era só a de criar um mercado atraente para ela, mas a de tomar todo o cuidado para não se enroscar depois, e ser vista como a criadora de uma tecnologia que acabou com os livros e o pão de cada dia de muita gente, tal qual foi acusada de ter feito a Naspter com a música [e colocada abaixo por isto].
Pergunte para a Microsoft o que ela fez depois do lançamento do Microsoft Reader 2.0. Colocou o assunto pirataria "na geladeira" e começou a pensar melhor sobre esta questão.
Aliás, leiam, pelas próprias palavras de Bill Gates, o que a Microsoft pensa sobre as engenhocas criadas para criptografar informações.
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