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Uma Nova Máquina de Ler

O livro eletrônico [ eBook ], que pode ser lido na tela do computador ou num aparelho portátil, certamente está acrescentando uma nova dinâmica à leitura. Em ambos os formatos - PDF, RB [ Rocket Edition ] ou LIT [ MS Reader ] - o mesmo livro terá sempre uma diagramação ou uma aparência diferente. Muitas vezes, o leitor pode não perceber estas diferenças, ele estará mesmo é entretido com seu livro preferido. Mas cada livro terá em suma uma aparência dispersa em si, isto ocorre porque cada reader possui um ganho de tela diferente. Com o Acrobat eBook Reader [ antigo GlassBook Reader ] por exemplo, pode-se ler em trinta linhas; mas no MS Reader as linhas não passam de dez.

 

Alguém pode achar esta discussão sem razão, mas é necessário lembrar que em 1.800 anos de vida num formato, digamos, preso, o livro sempre carregou, mesmo em edições diferentes, aquela íntima página que nunca mudava de lugar. Então a gente pensa que, por exemplo, no livro "O Pequeno Príncipe" as aquarelas feitas pelo autor Exupéry estavam sempre dispostas em páginas que guardavam em si um conjunto, uma harmonia. Sabemos que em se tratando de tecnologias de Internet se não tomar cuidado esta harmonia se perde. Acontece com os readers, com exceção dos que lêem PDF, o que acontece com as dezenas versões de browsers, navegadores: cada um lê um determinado documento de uma maneira diferente.

 

Poderíamos aqui enumerar vantagens e desvantagens de ler um livro num formato ou em outro, antes, porém, podemos tentar entender o que está por trás desses suportes. Porque se realmente o livro no formato convencional vai passar por uma metamorfose, merece, então, um cuidado que garanta que sua característica principal não se perca - tanto na tela quanto num suporte físico portátil.

 

Os arquivos lidos nestes readers são, em sua maioria, vindos de textos no formato HTML. Este formato permite um reflow nas páginas dos livros. Quando o usuário escolhe, no reader, ler seu livro com letras grandes, fontes maiores, o texto do livro corre pela páginas do reader.

 

Certa vez, perguntaram-me porque ao invés de colocar estes tais livros eletrônicos em PDF ou HMTL não colocávamos simplesmente em Word. Esta pergunta foi feita por um leigo. Mas é aí que a coisa pega. Dá-se a impressão de que se está criando artefatos e tecnologias que, mais tarde, tornar-se-ão obsoletos. E não é isso. Um dos fatos pelo qual os desenvolvedores de livros eletrônicos estão utilizando, por exemplo, a tecnologia PDF como saída, é que seu formato é enxuto e pode ser carregado em múltiplas plataformas [ Notebook, Laptop, Pocket PC, Palm ou desktop ]. E ele será sempre igual, exatamente como as páginas originais de "O Pequeno Príncipe". A idéia não é exatamente mimetizar os livros de papel, mas guardar tudo o que o livro trás que faz dele único.

 

A minha resposta ao leitor foi a seguinte, o formato HMTL vem somar interesses de todas as empresas envolvidas em criar padrões abertos, para que o leitor final não se perca em tantos formatos diferentes e também proprietários, como o MS Word cujo documentos só rodam em Windows.

 

De qualquer maneira, o livro, por si só, tem corpo, e é um objeto de características próprias, bem diferentes de outros objetos que possam agregar valores como pagers, celulares e etc. Para criar um artefato tecnológico comparável a um livro e, por assim dizer, criar um novo suporte para ele, é preciso antes entender estes suportes e o livro em si. O livro tem vida própria, não adiantaria levar para os eBooks algumas características tão inerentes a eles como as páginas duplas. Não é preciso criar um artefato com dois LCDs [ como tentou o projeto EveryBook Dedicated Reader ] para que ele se pareça com um livro. Lembramos que o livro, na antiguidade era apresentado em formato de rolo e, se formos comparar, o livro lido na tela de um computador é que mais se assemelha ao rolo. O livro no formato de caderno como conhecemos foi concebido desta maneira para adaptar-se a uma realidade específica.

 

Quanto criamos livros em HTML, praticamente voltamos ao passado, quando os livros eram lidos em rolos. Aliás, é para isto que hoje existe a barra de rolagem. Quem vai dizer que um livro lido num Palm ou num eBook Device, não vai deixar de ser considerado um livro, mesmo tendo características diferentes?

 

Quando as editoras começaram a utilizar o programa PageMaker para fazer a editoração de seus projetos para impressão, o livro estava lá no formato eletrônico, e ninguém poderia dizer que aquilo não era um livro. Dezenas de centenas de escritores, bem antes da chegadas dos eBooks, já digitavam seus textos direto no computador, muitas vezes sem usar a escrita. E mesmo alguns manuscritos foram logo digitados para que pudessem ser diagramados nas telas.

 

O livro não vai perder suas características e deixar de ser livro só porque está se mudando o suporte. Quando surgiram as primeiras gerações de suporte eletrônico para livros, houve uma interrogação que paralisou a todos: "os livros como entendemos hoje, poderia simplesmente desaparecer?". E a resposta, para nós que lemos, gostamos de livros - e estamos atentos ao desenvolvimento das novas formas de comunicação -, é NÃO. A grande sacada de usar a tecnologia inventada pelo homem nesses últimos trinta anos, é a de democratizar a leitura. Simplesmente levar a leitura a todos os que querem ler.

 

Quando se adquire um eBook Device, não se está apenas adquirindo uma caixinha de plástico com uma telinha para visualizar textos. Está se adquirindo todos os romances, poesias, contos e gibis que puder ler. Não se trata também de deixar a indústria da informática tomar conta de algo tão sagrado pra nós. A Internet democratizou a informação e poderia muito bem ser responsável pela democratização dos livros. É por isso que a maioria das idéias que se formam para suporte eletrônico para livros, vêm junto com a idéia da parceria com a grande Rede.

 

O que faz de um conteúdo ou um conjunto de informações um livro, é a maneira como o livro foi concebido desde Gutemberg. Os livros como entendemos hoje - com páginas, capa, orelha, sumário etc -, não desapareceria se não fosse tão importante manter suas características.

 

Se não, o que é um livro? É o conjunto de páginas de papel ou outro material unido entre si. Quer dizer, a página em si não desaparece por estar na Internet ou no papiro, ela continuará existindo para dar seqüência a um documento, para dar uma união. E estas páginas poderão conter textos, ilustrações ou música.

 

No entanto, para ser considerado como tal, o livro tem que ter determinado número de páginas ou capítulos e constituir uma unidade independente, o que é diferente e distinto das publicações periódicas da Internet e outras fontes como revistas e jornais impressos.

 

Se não tívessemos aqui tentando entender o que está acontecendo com a maneira de publicar histórias, talvez pudéssemos acreditar na extinção de um objeto claramente tão belo.

 

Não há confrontos, só especulação que a indústria da informática insiste em maldizer para talvez amendontrar a indústria cultural. O eBook não é apenas mais um suporte de leitura, é uma interface. Isto faz toda a diferença. O livro eletrônico nos coloca diante de uma nova máquina de ler.

 


 

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