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Hipertextualidade

A escrita foi a mais importante descoberta técnica dos homens, com ela inúmeros conhecimentos antes soterrados nos labirintos da oralidade puderam ser resgatados por gerações futuras, fundando uma nova modalidade de colaboração humana, conhecida por nós como ciência. À escrita devemos, portanto, todo o nosso progresso tecnológico. A ela devemos o intercâmbio entre as diversas culturas e raças que povoam nosso planeta. Mas não haveria  escrita sem leitura, são as duas faces de uma mesma moeda, estão totalmente articuladas, a ponto de a própria originalidade de textos literários poder ser questionada pela influência que as leituras exercem sobre o autor. Escrever é registrar conhecimentos, formatar sensações, criar novas modalidades de entendimento, reinventar o mundo valendo-se da combinação infinita de poucas letras. Ler é atualizar o que foi escrito, mas não todo o conteúdo, quando lemos nos apropriamos apenas de uma parte do texto, ao conteúdo apreendido juntamos outros que vagam nos desertos da memória, interpretamos e reinterpretamos o material apreendido e ao final deste movimento, que pode durar o mesmo tempo que o próprio ato de leitura, estaremos diante de um outro texto, recortado, dobrado sobre si, modificado.

 

Se um texto só existe verdadeiramente quando lido, e se o ato de leitura implica transformação radical ou não do texto, então toda leitura é hipertextual.

 

Hipertexto é uma das mais instigantes experiências textuais tornadas possível com o advento do universo digital. Pierre Levy, um dos principais estudiosos do tema em O que é Virtual (Editora 34), define assim o hipertexto:

 

"... com efeito, hierarquizar e selecionar áreas de sentido, tecer ligações entra essas zonas, conectar o texto a outros documentos, arrimá-lo a toda uma memória que forma como que o fundo sobre o qual ele se destaca e ao qual remete, são outras tantas funções do hipertexto informático."

 

Desde sua criação pela antiga civilização mesopotâmica, o texto ideogrâmico ou iconográfico, e posteriormente alfabético, constitui-se em objeto virtual. As diversas leituras realizadas através dos tempos nada mais são que atualizações de seu conteúdo e sentido. Nessas, as diversas significações que constituem o leitor agem sobre o texto criando lacunas, fragmentando-o, extraindo dele apenas aquelas partes que podem ser entendidas ou interpretadas. Dessa forma, o texto torna-se outro, desdobra-se em inúmeros textos com os quais é cotejado, dialoga com seus fragmentos e, finalmente, é retido pela memória do leitor completamente desfigurado.

 

A tecnologia criou condições para que ao texto alfabético se conectem uma série de recursos antes utilizados por nossa mente durante a leitura. finalmente, o leitor, considerado por séculos um passivo usuário, influencia definitivamente o texto concedendo a este, no próprio ato de sua confecção, os múltiplos recursos.

 

Quem já navegou obras compostas em hipertexto pôde constatar que elas apresentavam uma ampla variedade de links, que permitem ao leitor remeter-se à origem de determinados argumentos, ou visualizar mapas e fotos da região que o texto descreve. Ou mesmo ouvir a música produzida na época retratada. Mas ainda mais instigante é a possibilidade do leitor registrar suas impressões a respeito do texto lido, ao mesmo tempo em que pode consultar as impressões de um número indefinido de leitores. De forma definida, a postura aparentemente passiva do leitor é substituída por uma atividade leitora que deixa marcas visíveis sobre o texto.

 


Fonte: Revista Editor

trechos do artigo "O Livro Digital"

por José de Mello Jr.

ANO 2 - Nº 8 - Fevereiro /  Março 2000

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